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Jejum e Oração As experiências espirituais, por mais arrebatadoras que sejam, não nos são normativas. A Bíblia é que o é. O princípio se aplica ao tema do jejum, que nos ajuda a expressar, aprofundar e confirmar que estamos prontos para nos sacrificarmos para alcançar o que buscamos para o Reino de Deus (segundo a definição de Andrew Murray).
O jejum é uma prática voluntária, na decisão e na extensão. Não é requerida por Deus, a exemplo do celibato e do martírio. Muitos homens e mulheres da Bíblia (e da história cristã) jejuaram, como Davi (Salmos 35 e 109), mas nela não encontramos Deus nos pedindo jejum. Nem mesmo Jesus o fez.
O jejum não amarra a Deus. Não façamos como os contemporâneos de Isaías, que perguntavam o Senhor não reparava o jejum deles (Isaías 58.3).
Jesus não recomenda o jejum, mas parte do pressuposto que seus seguidores o fazem e nos adverte do perigo implícito da vaidade que pode acompanhar a abstinência (Quando jejuarem, não mostrem uma aparência triste como os hipócritas, pois eles mudam a aparência do rosto, a fim de que os outros vejam que eles estão jejuando. Eu lhes digo verdadeiramente que eles já receberam sua plena recompensa. Ao jejuar, arrume o cabelo e lave o rosto, para que não pareça aos outros que você está jejuando, mas apenas a seu Pai, que vê em secreto. E seu Pai, que vê em secreto, o recompensará - Mateus 6.16-18).
Quantos cristãos sinceros conheço que jejuam? Nenhum. Por seguirem à risca todas as instruções de Jesus sobre a prática, os cristãos sinceros que jejuam não permitem que os outros fiquem sabendo que eles jejuam. É por isto que não conheço nenhum cristão sincero que jejue. Quer jejuar? Jejue, mas não me diga, nem me deixe saber.
Jejum não é uma prática constante; a oração, sim. Jesus respondeu: Como podem os convidados do noivo ficar de luto enquanto o noivo está com eles? Virão dias quando o noivo lhes será tirado; então jejuarão. (Mateus 9.14 ; cf. Marcos 2.18-20; Lucas 5.33-35) Portanto, o jejum espiritual é companheiro da oração. Sem ela, tem efeitos medicinais ou de autodisciplina, mas não espirituais.
Jejum faz parte do processo de santificação, não sua negação. E santificação se evidencia na busca pela obediência a Deus, no relacionamento com Ele (humildade e pureza para a intimidade com Deus e com o próximo (respeito e misericórdia para a produção da injustiça).
O jejum pode acompanhar, como demonstração concreta, nosso arrependimento dos pecados, nossos e dos outros.
Jejuar é abster-se do essencial (alimento durante um período determinado), mas também de todo desperdício. Jejum tem a ver com o quanto comemos (quando surgiram as balanças nos restaurantes, descobri, para minha vergonha, quantos gramas eu comia no almoço), com o que gastamos o nosso dinheiro, com as prioridades de nossa agenda diária, com o destino (quantas digo que não deveria ter dito!) de nossas palavras. Jejuar é também não comer em excesso, não reter recursos (dinheiro, talentos, dons) que foram entregues à nossa administração, não deixar a noite simplesmente ir vencendo o dia (como se não houvesse um propósito para a vida).
Podemos precisar de um jejum como uma forma de intercessão, que é oração pelos outros, dentro e fora da família. Davi orou e jejuou por seu filho e não foi ouvido. (Davi implorou a Deus em favor da criança. Ele jejuou e, entrando em casa, passou a noite deitado no chão - 2Samuel 12.16); Esdras jejuou em favor de uma missão próxima. (Ali, junto ao canal de Aava, proclamei jejum para que nos humilhássemos diante do nosso Deus e lhe pedíssemos uma viagem segura para nós e nossos filhos, com todos os nossos bens. (...) Por isso jejuamos e suplicamos essa bênção ao nosso Deus, e ele nos atendeu - Esdras 8.21-23).
Podemos precisar de um jejum como um tempo de conexão maior com Deus para podermos ser por Ele orientados. (Alarmado, Josafá decidiu consultar o Senhor e proclamou um jejum em todo o reino de Judá 2Crônicas 20.3).
O jejum de alimento não é para todos. O jejum de alimento é para quem tem saúde capaz de resistir, sem dano, a um longo tempo sem ingestão de comida. Os outros jejuns são para todos.
Sem ignorar o valor do jejum de alimentos, alguns de nós precisamos (e esta é uma decisão que vem do coração que se conhece e não se engana) de outros jejuns. Jejum tem a ver com a boca, mas não só com a boca, porque também com os olhos, com as mãos e com o bolso.
Quem sabe, alguns precisemos de um jejum de palavras. Jejua de palavras quem, sabendo o poder delas, abstém-se de as dizer. O jejum de palavras termina em não dizer, mas começa em não pensar, que começa em não desejar. Se você não deseja comentar a vida de alguém, aí começa o seu jejum. Se você não pensa mal de alguém, você não fala mal de alguém. Ouça suas próprias palavras e meça como está o seu coração.
Quem sabe, precisemos alguns de nós de um jejum de ódio. Tem sobrado ódio em nossos corações, por que não um jejum de ódio? Tem sobrado egoísmo em nossas práticas, por que não um jejum de egoísmo? Tem sobrado curiosidade cúpida em nossos olhares, por que não um jejum de olhar?Tem sobrado julgamento (do outro) em nossa razão, por que não um jejum de razão? Tem sobrado palavras que não edificam (a nós mesmos e aos outros) em nossos lábios, por que não um jejum de palavras? Tem sobrado críticas às ações dos outros, por que não um jejum de críticas?
De que você precisa jejuar?
De alimentos, para não ser dominado por eles e ter mais tempo para Quem deve controlar suas vontades? Jejue deles.
De desejos, que afastam você da busca maior de sua vida? Jejue deles.
De pensamentos de autopiedade, ao não se sentir amado? Jejue deles.
De sua autosuficiência, que o torna um idólatra de si mesmo? Jejue dela.
De palavras que sujam? Jejue delas.
De tristeza quando não é reconhecido? Jejue dela.
De que mais? Jejue.
Talvez estas espécies de práticas, de tão enraizadas, só deixarão você com oração e jejum (Mateus 17.21).

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