Pastor relata visita ao Haiti
Por Marcia Pinheiro
08 de fevereiro de 2010

“Eu e os pastores Aílton Desidério (PIB em Lins de Vasconcelos – Rio de Janeiro/RJ) e Paulo Albuquerque (IB Memorial de Duque de Caxias/RJ e 2ªIB em Rio Bonito/RJ) desembarcamos na República Dominicana no último dia 2, por volta das 13h15 (15h15 pelo horário de verão de Brasília). Fomos recebidos pelo Pr. Jorge Tejada, missionário dos batistas brasileiros que atua no país, mais especificamente nas cidades de El Llano e Baní. Ele nos levou à sede da Convenção Batista Dominicana (CBD), onde ficamos hospedados.
À noite, tivemos uma reunião com o irmão Carlos Llambes, missionário natural de Cuba que coordena um ministério da CBD entre os haitianos. Uma frase que nos chamou a atenção foi: “Deus está usando essa situação para unir dois povos que, embora dividam uma mesma ilha, são historicamente hostis um ao outro”.
No dia seguinte partimos rumo ao Haiti. Foi uma longa viagem, pois as paradas nas aduanas dominicanas e haitianas foram muito extensas. No final da noite chegamos a Pétion-Ville, onde nos esperavam o casal Jonathan e Alexandra Joseph, nossos missionários da terra no Haiti e coordenador do trabalho da Associação das Igrejas Batistas do Haiti para a Missão Integral (AEBHMI). Fomos diretamente à Methodist Guest House, onde ficaremos hospedados até o dia 10, uma verdadeira ilha de concreto firme e incólume em meio às paredes e muros das casas vizinhas derrubadas pelo terremoto de 12 de janeiro.
Em nosso primeiro dia de trabalho no Haiti (04/02), tivemos uma reunião prévia com o Pr. Jonathan e sua esposa, que expressou sua alegria e gratidão à JMM pela solidariedade demostrada em enviar seus representantes nesse momento. Igualmente, apresentou os desafios que se apresentam após o terremoto e formas de ajudarmos. Também expressou sua opinião sobre as iniciativas das várias igrejas e organizações internacionais nesse primeiro momento pós-tragédia, sugerindo medidas posteriores para a reconstrução do país rumo a um novo momento. Concordou com o nome profético do projeto “Por um Novo Haiti”, dizendo que não imaginava que o novo Haiti teria de ser construído a partir de sua destruição. Reafirmou que, embora pudesse sair do país nesse momento, Deus lhes deu a certeza de que estão ali para confortar e ajudar seu povo a reencontrar o caminho do progresso e da submissão a Deus, única forma de se construir, de fato, um novo Haiti.
Numa rápida ronda por Porto Príncipe pudemos ver o estrago que o terremoto causou no Haiti. Muitas casas destruídas, comércios derrubados, prédios públicos devastados, escolas e hospitais inutilizados. O Palácio do Governo, os vários prédios dos ministérios, prefeitura, correio central, Palácio da Justiça, Parlamento, tudo em ruínas. Nem a catedral do país escapou, ficando apenas a imponente fachada. Em consequência disso, tendas espalhadas nas praças e espaços públicos antes vazios. Centenas ou talvez milhares de famílias espalhadas por toda parte da cidade. Certamente, sob esses escombros há muitos corpos que não foram retirados. O Governo confirmou mais de 200 mil mortos. E muita gente ainda está desaparecida.
Mas a maior tristeza foi visitar a comunidade de Trou-Sable. Pessoalmente, a dor foi de lembrar de como era aquela favela, com crianças correndo para todo lado, bandeira do Brasil nas paredes e uma igreja vibrando, onde preguei pela primeira vez no Haiti. A cena era digna de um filme apocalíptico produzido por Hollywood: devastação. Casas derrubadas, nossa igreja batista completamente destruída. Segundo os flagelados dali, nenhuma ajuda chegou até agora. Várias famílias da igreja estão ali também. Quem não teve lugar em Trou-Sable para ficar, foi embora para outras praças da cidade ou para o interior, na casa de algum parente ou por medo de novos tremores.
Não menos comovente foi ver meu amigo pastor Joanès Dessouce, nosso missionário da terra, desolado, nos contando da dor de ver sua comunidade dispersa. Sua família de quatro filhos não sofreu danos físicos, mas sua esposa ainda não está recuperada dos traumas. Perguntado sobre o que fazer, ele respondeu cabisbaixo e lacônico: “Vamos procurar um outro lugar para iniciar uma nova igreja”. De fato, não há o que aproveitar de Trou-Sable.
Também não foi fácil ouvir do Pr. Berthony Denaud, nosso missionário da terra que morava em Trou-Sable antes do sismo. Ele conta que na hora do tremor, estava no Seminário. Imediatamente foi para casa e, ao chegar, viu sua casa em ruínas. Chorava e buscava pela sua esposa e filhos e seus vizinhos diziam: “Não adianta procurar por eles; já estão perdidos!”. Então, conta que a primeira imagem que viu da sua casa foi sua Bíblia, como que se flutuasse dos escombros e então ouviu a voz da esposa que dizia: “Denaud, eu estou aqui; não vá embora”. Depois disso, sozinho, e com as próprias mãos, retirou dali sua mulher e os dois filhos, que agora estão na casa de parentes no interior, como boa parte dos ex-moradores da antiga favela de Trou-Sable.
Nessa rápida tournée, pudemos ver o poder devastador da natureza sobre um país que, histórica e culturalmente, tem sido massacrado pelo vodu, furacões, tempestades tropicais e ditaduras cruéis. No entanto, talvez nunca na história do Haiti se registrou um cataclismo tão intenso e de proporções inimagináveis. Não se fala em outra coisa que não seja: e agora? Será que esse povo tão acostumado a tragédias vai se reerguer dessa desgraça? O que está sendo feito? O que podemos fazer? O que Deus quer a façamos?”.
(Pr. Mayrinkellison Wanderley -- de Missões Mundiais)
O Pr. Mayrinkellison, em breve, enviará novos relatos desde o Haiti. Esta semana ele ainda visitará um hospital e a igreja em Cabaret e fará contato com o candidato a Radical Latino, Jimmy Bonaparte.